Como falar sobre morte para uma criança?

 em Criação Consciente, Paternidade Afetiva

Não é fácil falar sobre morte para uma criança. Não é fácil falar sobre morte para um adulto. Todos nós temos dificuldade nisso. Fato esse que nos faz deparar com tantas religiões, superstições e crenças em diferentes culturas.

Cada um buscou em seu inconsciente uma forma, uma imagem, um apoio para uma ausência tão dolorosa.

Alguns acreditam que haverá uma vida após a morte, talvez uma reencarnação, uma luz, uma passagem para outro plano… Cada um, à sua maneira, encontra uma continuidade, uma imagem que justifique, explique… conforte.

Para cada idade, para cada etapa de nossa maturidade e compreensão, essas imagens podem ou não se modificarem. E para uma criança, isso não é diferente.

O que digo aqui são reflexões pessoais. Perdi meu pai quando criança, assimilei de uma forma naquele momento e, com o passar dos anos fui refletindo melhor. Cconfesso que já me peguei  imaginando como eu agiria com uma criança em uma situação como essa. (Aliás, me pego o tempo todo pensando em como explicar certos assuntos para uma criança).

Temas relacionados à morte são ditos em livros infantis, desenhos, algumas crianças escutam de amigos, veem algum animal, insetos, plantas, peixes passarem por isso e por vezes brincam com o tema. Ontem foi Halloween, uma festa em que muitas crianças “flertam” com a morte, brincam com o terror, tornam tudo uma brincadeira. Quem sabe assim, o lúdico ajude ver a realidade de forma menos amedrontadora. 

E a criança compreende tudo isso?

Existe uma idade em que é ainda difícil distinguir a realidade e o imaginário. Acredito que estas histórias e brincadeiras ajudam a criar um repertório, uma biblioteca, recursos para elaborar um raciocínio, para elaborar uma compreensão.

Para a criança, a morte está ligada ao medo, ao susto, enquanto que para o adulto, este horror vem com a presença da ausência do outro, não é mais o medo do sobrenatural, mas da realidade da perda. Parece apenas que deslocamos um medo para outro, como se a criança pudesse antever o medo da ausência por meio do horror ao sobrenatural.

E como contar?

Já percebi em mim o quanto eu preciso me acalmar antes de tentar acalmar alguém. Falar sobre esse assunto também requer calma. E, uma vez mais calmo e tranquilo, a clareza é sempre importante.

Na minha opinião, imagens como: virou uma luz, foi para o céu ou fez uma viagem são muito abstratas e podem causar uma confusão. Se viajou, por que não voltou? Se eu for viajar, será que posso não voltar? Por que “papai do céu” veio buscar e não deixa eu visitá-lo(a)? Acredito que podemos usar o verbo “morrer”. Pode ser algo mais natural, ainda que isso não alivie a dor.

As explicações, bem como as compreensões, são gradativas. À medida que crescemos, compreendemos melhor algo que já nos foi dito, independente do assunto.

Sendo assim, vejo que devemos dizer apenas o necessário. Sair explicando tudo é algo que, muitas vezes, pode ter mais a ver com uma angústia nossa do que da criança.

Não há nada de errado em responder a pergunta de uma criança com: “Isso o(a) pai (mãe) não sabe te explicar. Eu também não compreendo.”

Uma pergunta de cada vez. Uma resposta de cada vez. Cada coisa a seu tempo… como na natureza. O luto é necessário e precisa ser respeitado.

Aguardamos as estações, nos refrescamos quando é o momento, nos aquecemos quando necessário. Observamos a troca de folhas quando é chegada a hora, apreciamos a florada e colhemos quando possível.

São reflexões de alguém que não tem uma formação de estudo sobre o assunto, mas que gosta de observar cada estação e tenta compreender o tempo da natureza, o tempo de cada um, o ritmo de cada momento. (Na medida do que é possível em cada momento)

Espero ter ajudado você que leu até aqui. Escrever também me ajudou 🙂

Até o próximo post. Até um próximo tempo…

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